Capitulo V .

Isso concerteza não era verdade, Victor tinha uma vida financeira estável, não precisava recorrer a esses meios. Minha irmã estava blefando, provavelmente para acobertar um desses amiguinhos suspeitos dela. O que essa garota tinha na cabeça?

Ela queria jogar, não era? Então, eu entrei no jogo.

-- Então prove!

-- Sim, amanhã à noite. – Disse.

•••

Acordei com uma inútil esperança de que aquilo houvesse sido um sonho, ou melhor, pesadelo.

E como você pode deduzir, não foi.

Levantei e corri para a janela ainda naquela esperança inútil, me inclinei para o lado de fora e vi o garrancho que aquele meliante havia deixado ontem à noite.

E lá se vai a minha esperança e o meu raro bom humor matinal.

Se eu acreditasse em sorte, estaria desesperada.

Chegando à escola, adivinhe com quem esbarrei?!

É, acertou!

-- Anne, e ai, já superou o medo de motocicletas? – perguntou Victor abrindo o portão da frente para mim.

-- Sim. – Foi só o que eu consegui dizer, com uma voz falha, confesso.

-- Dormiu bem?

-- Não. Olha Victor, minha aula já vai começar. Tchau.

-- Mas, ainda faltam 20 minutos.—Disse ele segurando meu barco com delicadeza.

-- Reforço em Física. — Disse, me soltando. Com a minha visão periférica pude vê-lo se inclinar para beijar o meu rosto. Corri meio desajeitada, como se estivesse fugindo de alguma assombração, e... De certa forma... Estava.

Chegando à minha sala, encontrei com Clara.

-- Nossa, Anne, o que aconteceu com você? Está tão pálida!

-- Nada.

-- Que seja. Olha só, esse sábado uma amiga minha vai fazer 18, ai meu irmão não vai. Quer ir comigo?—Perguntou ela de uma forma nenhum pouco pausada,

-- Você sabe que eu não gosto de festas.

-- Ah, vamos, não quero ficar lá sozinha.

Então, surgiu uma idéia brilhante (era isso que eu achava).

-- Eu vou se você me fizer um favor hoje à noite.

-- Qual? – Perguntou ela de olhos arregalados, afinal, eu não estava acostumadas a fazer esse tipo de acordo.

-- Nós vamos sair hoje à noite, quando eu souber o local eu te ligo. Tenta levar algum carro, com alguém que dirija, por favor, não se arrisque a dirigir!

-- Ta, eu peço ao meu irmão para ir com a gente. Mas eu quero saber, do que se trata?

-- Vamos seguir o Victor hoje.

-- Nossa, Anne, não sabia o quanto você era possessiva.

-- Não é nada disso que você está pensando, vamos segui-lo só isso.—Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Eu, definitivamente, estava perdendo a noção. Estava tão cega em saber a verdade, que não pude nem mesmo ouvir o que eu falava para Clara.

Chegando em casa, passei por minha mãe (que estava de folga naquele dia, não lembro porque), beijei Gustavo e fui ao quarto de Bianca.

-- Onde devo ir hoje? – Perguntei meio ofegante.

-- Vou anotar o endereço pra você, só um minuto. – Respondeu ela levantando-se ligeiramente da cadeira que ficava em frente ao computador, correu para a escrivaninha que se encontrava ao lado de sua cama, abriu uma das gavetas e pegou um bloquinho de papel e uma caneta, e então começou a escrever com movimentos rápidos.

-- Tome. – Terminou ela.

-- Valeu bia, te devo essa – Respondi.

-- Anne, tome cuidado, não se meta com essa gente – Disse.

-- Tá.

Fui direto para o meu quarto, joguei a mochila e o endereço na cama e fui tomar banho.

Saindo do banho, coloquei um blusão do meu pai e um short curto e largo; fui fazer meu almoço. A curiosidade me consumia, não conseguia parar de imaginar Victor praticando algo ilícito, mas a questão não era o que ele fazia, e sim porque eu estava tão interessada em saber o que ele fazia?

Bem, estava tão absorta em meus pensamentos que me esqueci de ligar para Clara perguntando se o irmão dela poderia nos levar.

[Dados sobre o irmão de Clara: Ele se chamava Benjamim (Ben, como você preferir) e era exuberantemente bonito, mas, naquele momento de total insensatez eu AINDA não havia percebido esse atributo.]

-- Alô, Clara? – Perguntei quando ouvi alguém atender o telefone.

-- Oi, amiga – Ela respondeu do outro lado.

-- Já falou com seu irmão? Bianca me deu o endereço, espera um pouco que eu vou pegar. – Corri e peguei o pedaço de papel em minha cama.— Pronto.

-- Ah, sim, ele falou que pode nos levar, mas ele precisa saber onde é e que horas, porque ele vai usar o carro do meu pai, o dele está na oficina.

-- ah sim, ele está aí?

-- Sim, vou chamá-lo. – Houve uma pequena pausa, então...

-- Anne. – Disse ele com uma voz suave.

-- Oi, Ben. Como você estar?

-- Para falar a verdade, curioso. Aonde vamos?

-- Av. Antônio M.

-- Ah, sim, sei onde é, mas esse lugar é barra pesada, o que você vai fazer lá?

-- Descobrir com que tipo de pessoas eu e minha irmã andamos.

-- Tá bom, passo ai às 21H?

-- Por mim tudo bem.

•••

Quando deu umas 20H comecei a me arrumar. Tomei banho e vesti um Jeans, uma Blusinha marrom com botões pretos que fechavam na frente e calcei meus velhos Tênis.

Lembro de ter falado algo com minha mãe sobre sair com Ben e Clara, eu só tinha que sair antes de meu pai chegar, se não o interrogatório iria começar.

Ouvi o Barulho da campainha e levantei para abrir a porta e pegar meu casaco.

-- Amiga, vamos. – Disse clara já me puxando para fora.

-- Tchau Mãe. – Consegui gritar por fim.

Corremos pelo jardim até chegar ao Palio prata do pai de Clara.

-- Vá no carona, é mais confortável atrás para mim.—Disse Clara abrindo a porta e já me empurrando ao banco da frente, logo abriu a porta de trás e sentou-se no meio.

-- Olá Anne. – Disse Ben.

Ben parecia mais um sonho do que a realidade. Ele tinha uma aparência suave, calma. Seus cabelos eram loiros puxados mais para marrom/mel, tinha a pele branca, mais ou menos da minha cor, o rosto lembrava ligeiramente o de Clara e os olhos eram de um azul intenso e perturbador que lembravam lagoas cristalinas.

-- Olá Ben, você está tão... Diferente.

-- Deve ser a idade, já faz um tempo que não nos vemos. Você também parece diferente para mim.

-- Chega de matar a saudade, já estar quase na hora que você falou, Anne – Interrompeu Clara, o interessante é que, naquela hora, da aula, eu não lembrava de quase nada que havia dito à Clara, inclusive o horário.

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Capitulo IV.

-- Não Brinca!

-- Nossa, como você pode ser tão irônica?

-- É um talento.

-- To sem parceiro de técnico. Aceita o convite?

Eu também estava sem parceiro e não conhecia ninguém ali, exceto Victor. Não seria nada demais.

-- Tudo bem, não conheço ninguém mesmo.

-- E então, aconteceu alguma coisa depois da aula?

-- Não, por quê?

-- Nada, só queria puxar assunto.

-- Você é ruim nisso.

-- Não, você que é difícil de agradar.

-- Você que não sabe me agradar.

A aula do técnico era sempre chata, mas, por algum motivo, aquela aula estava passando rápido.

E daí se ele tinha namorada? Amiga dele eu poderia ser.

Na hora do intervalo, o sol já estava indo embora. Estávamos sentados no pátio, em frente a nossa sala de técnico.

-- Você pretende fazer o que? Quero dizer, que faculdade deseja fazer? – Perguntei a ele.

-- Ainda não decidi, mas, devo virar engenheiro. E você?

-- Não faço a mínima idéia!

-- Nossa você me parece tão decidida, tão certa de si.

-- HaHa, fala sério. Eu? Decidida? – Não consegui conter o riso.

-- Sim, até intimida às vezes.

Decidi ignorar essa, mas não deu pra ignorar a minha curiosidade.

-- Quero te perguntar uma coisa— Falei com receio.

-- Pergunte.

-- Larissa... Vocês...

-- Ah, não, não. É complicado. Nós já namoramos, mas, não dá mais certo. O problema é a fazer entender.

-- E você?

-- O que?

-- tem... e-eh namorado?

-- Ah, não, também não.

E ai ficou aquele velho e clichê silêncio constrangedor.

-- Por quê? – perguntou ele após algum tempo.

-- Sou muito tímida. Não sei como essas coisas funcionam, é complicado demais pra minha capacidade de entendimento. E você? Por quê?

-- Gosto da liberdade. De não ter ninguém no meu pé.

-- Seu pai é dono daquela loja em frente a minha igreja?

-- Sim. Ele freqüenta a sua igreja, ele, minha irmã, minha mãe.

-- e você?

-- ah, não sou de igreja, tenho outros meios de me divertir.

-- Nossa, e quais são esses meios?

-- Você não vai querer saber.

Ouvimos o sinal e então voltamos pra aula. E mais uma vez ela passou rápido, quando percebi, já eram 19h00min e o técnico havia acabado, graças a Deus.

Eu só tinha aula do técnico três vezes por semana, e mesmo assim, era como se tivesse todo dia.

Saímos juntos outra vez, fomos em direção ao portão, mas ele desviou e foi em direção a moto, aquela bendita moto.

-- Quer carona?—Perguntou ele.

-- Não precisa, eu moro perto.

-- Eu te deixo lá, sobe ai.

-- a- aí não

-- Qual o problema com a minha moto.

-- ela quase me matou ontem.

-- Ah sobe ai, prometo ser prudente.

Pensei três vezes, subi na moto, toquei na cintura dele e o constrangimento foi inevitável.

-- Segure firme. —Falou ele.

E, então, partimos.

A moto percorreu a avenida em uma velocidade média, ele realmente estava sendo prudente. Quando chegamos perto da minha casa ele reduziu e então parou em frente a minha casa.

-- Está entregue!

-- Obrigado. – falei um pouco corada.

-- Se machucou? Este te faltando algo? Um braço, sei lá.

-- Não, engraçadinho. To bem.

-- Te vejo amanhã?

-- Sim.

-- Ok, então. Tchau.

Ele se aproximou para beijar meu rosto, me deixando mais corada ainda. Ele pareceu perceber o meu constrangimento e riu, disfarçadamente. E então, partiu.

Assim que entrei em casa meu pai estava sentado na poltrona vendo seu telejornal.

-- Olá, filha. Quem era o garoto que a deixou aqui? – indagou ele.

-- Um amigo.

-- Esse amigo tem nome?

-- Victor.

-- Já falei que não gosto que você ande em motos.

-- Pai, eu estou morta de cansada e queria chegar cedo em casa, então aceitei a carona.

Ele se calou e eu fui em direção ao meu quarto, passei por minha mãe e beijei a.

Sentei no computador, chequei meus e-mails e desliguei o computador. Tomei banho, vesti um moletom e fui fazer algo para jantar.

Bianca estava na cozinha brincando com Gustavo.

-- Pedro não é? – Brinquei.

-- o que tem ele? – ela respondeu.

-- Nada, ué.

Ela revirou os olhos, pegou Gustavo e saiu batendo o pé. Dei de ombros.

Resolvi fazer um macarrão instantâneo e assim que acabei fui dormir.

Acordei no meio da noite com um barulho vindo da minha janela. Quem estaria me chamando a essa hora? O único que tinha essa mania era John, mas ele nunca me chamara a essa hora. Quando abria a janela, dei de cara com um garoto de toca e blusa preta. Pichadores. Gritei o mais alto que pude e ele saiu correndo. Bianca correu para o meu quarto.

-- O que aconteceu? – Ela perguntou.

-- Tinha um acéfalo pichando a minha janela. Vou chamar o papai e a mamãe.

-- Não!

-- Por quê? E se ele voltar?

-- Ele não vai voltar Anne. Por favor, me prometa que não vai contar ao papai e nem a mamãe.

-- Por que eu não contaria? Você o conhece?

-- Era Pedro.

-- Mas com que Diabos de pessoas você anda se metendo?

-- Olha quem fala.

-- Como assim? Não conheço ninguém desse nível e você podia seguir meu exemplo.

-- Não anda é? E o que você diz de Victor?

-- Como assim? Ele é meu amigo.

-- Ele é de gangue, Anne. Marginal. E Eu tenho como provar.

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Capitulo III

E lá estava eu, admirando o corpo escultural de Victor. Tudo nele me atraia, a forma que o cabelo dele balançava quando ele corria, o jeito que ele respirava,cansado, aquele olhas negro, profundo e misterioso. A única coisa que eu fazia era admirá-lo, até aparecer uma loira, que parecia mais uma modelo do que uma pessoa normal, porém o estilo dela era um tanto peculiar. Ela usava uma blusa preta com a estampa da banda Kiss, calça Jeans e Tênis preto. A maquiagem também era pesada. O lápis preto marcava os lindos olhos verdes, destacando ainda mais a pele branca, o batom era claro, o cabelo estava preso em um rabo-de-cavalo no alto da cabeça. Mas o rosto tinha uma aparência pesada, triste. E, mesmo com todas aquelas roupas, maquiagem e o rosto triste, ela era linda, tinha uma postura incrível. Ela andou até Victor e lhe deu um beijo. Ele tinha namorada, Droga.

Resolvi sair daquele lugar. O que estava acontecendo comigo? Por que eu estava tão irritada? Afinal eu não tinha nada com ele, eu estava enlouquecendo. Mas como eu tinha uma sorte inacreditavelmente péssima, quanto mais eu rezava, mais assombração me aparecia.

-- Anne, eu estava procurando você! -- Victor estava vindo na minha direção. Acompanhado. Estava de mãos dadas com a modelo. ‘Anda tenta sorrir’. Pensei.

-- Oi .—Disse fingindo um sorriso.

-- Eu queria que você conhecesse a minha amiga Larissa.

-- Oi, Larissa.

-- Ela veio do sul, é nova na cidade. Achei que seria bom conhecer alguma garota.

-- Bem vinda, Larissa. Mas infelizmente eu tenho que ir, a aula de Biologia já vai começar.

-- Ok, tchau. —Falou, finalmente, Larissa.

A minha vontade era de sair correndo, que vergonha.

Victor fez uma cara de quem não tava entendendo nada enquanto me via indo embora.

Depois da aula de biologia, Clara não parava de falar.

-- Sabe, acho que preciso de um namorado.

-- É mesmo?

-- É, mas tem que ser bonito e...

-- Mas o que houve com o Raul? Aquele da semana passada.

-- Ah, amiga, ele nem combinava comigo, não sabia se vestir, era um grude, não iria dar certo.

-- e por que você quer um namorado se acabou de terminar com um que não deu certo?

-- É que eu sou carente...

-- Ah, fala sério, Clara.

-- Mas é verdade.

-- Você não precisa de ninguém, é independente.

-- Sou?

-- É, ah, quer saber, eu vou embora, Beijo e tchau!

-- Amanhã a gente se fala.

Naquele dia nem me preocupei em chegar rápido em casa, queria pensar sobre a minha vida, na minha família, nos meus amigos, em Victor, Larissa... Em todos.

Como eu poderia ser tão burra, é claro que ele tem namorada, que idiotice a minha.

Chegando em casa, abri o velho portão, passei pelo jardim, abri a porta branca, passei pela sala vazia e entrei no meu quarto, estava uma bagunça, nem tive tempo de arrumá-lo. Era um quarto legal, ele era azul, eu tinha um guarda-roupa velho, uma cômoda

também velha onde ficavam meus livros, uma cama (essa era nova) e uma mesinha onde ficava meu computador.

Resolvi almoçar primeiro, mas acabei percebendo que não havia ninguém em casa. Minha mãe e meu pai deveriam estar trabalhando. Gustavo deveria estar com minha mãe, mas, onde estava Bianca?

Então deduzi que ela deveria estar na casa de alguma amiga, mas, por precaução, resolvi ligar para ela. Peguei o telefone, Levei-o para a cozinha enquanto discava o número do celular dela. Chamou, chamou, até que uma voz estranha atendeu. Uma voz masculina.

-- Alô.

-- Oi, esse é o celular da Bianca? Sou a irmã dela.

-- Sim, eu vou chamá-la.

Enquanto ela não me atendia eu esquentava a comida. De quem seria aquela voz estranha?

-- Fala, Anne.

Atendeu ela com uma voz monótona.

-- Onde você ta? Mamãe não avisou que você iria sair.

-- Ah, ela deve ter esquecido. Eu to na casa de Lorena, volto antes das 18 horas.

-- Quem atendeu o seu celular?

-- Foi Pedro, o irmão da Lô.

-- Tudo bem então. Bem, eu vou ter que voltar a escola, vai ter aula técnica hoje e preciso que você ajeite a casa, ficar com Gustavo, essas coisas. Devo chegar umas 19 horas, por ai. Tudo bem pra você?

-- Ta... Tenho que ir, tchau.

-- Tchau.

Desliguei o fogo, fiz meu prato, comi, escovei os dentes e tomei banho. Ainda teria que arrumar meu quarto. A aula começaria às 15h30min, até daria tempo de dormir um pouco.

Comecei dobrando as roupas, e assim fui arrumando parte por parte. Quando acabei eram 14h, e, então resolvi me deitar.

O celular despertou às 15h, então levantei, tomei outro banho, coloquei o uniforme e sai.

Eu teria aula Técnica de máquinas navais e como eu tenho uma sorte inacreditável quando eu entrei na sala Victor estava sentado na carteira que ficava ao lado da minha.

Quando me aproximei, ele se inclinou para mim e arregalou os olhos, artificialmente.

-- É, parece que seremos parceiros no técnico.

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Capitulo II

Depois que todo aquele tormento teve fim, eu pude me livrar o chato do Victor e da chata da Clara, mas AINDA não tinha me livrado da minha mãe.

-- Oh, meu Deus! Filha, o que fizeram com você?

-- Eu cai.

-- Eu fiquei tão preocupada quando Álvaro me ligou...

-- Não aconteceu nada demais mãe; eu cai... Só isso.

-- Como assim ‘nada demais’?! Você quase foi atropelada por uma moto!

-- É, mas não fui!

-- Tudo bem, depois terminamos essa conversa. Agora você precisa descansar.

-- Não, eu tava querendo ir pra igreja... Posso?

-- NÃO.

Então eu resolvi parar de discutir e fui assistir televisão. Nenhum programa bom. Tentei ler um livro. Nada. ‘que droga’ pensei comigo mesma. Decidi ir pra igreja mesmo.

-- Mãe, to indo. Tchau.

-- Volte já aqui mocinha. Você tem que descansar.

-- Mas eu não to cansada e é hoje que nós vamos escolher as músicas do festival.

-- Tudo bem, mas qualquer coisa me ligue!

-- Ta.

Sai e fechei a porta antes que ela mudasse de idéia.

A igreja Batista da minha cidade era perto da minha casa. Eu fazia parte do coral – Não sabia cantar, mas fazia parte-- Eu trabalhava mais com a organização das músicas e os eventos dos jovens, só às vezes eu me arriscava a cantar.

A igreja era grande, a maioria dos meus amigos era de lá. Eu realmente adorava ir para lá quando eu queria fugir de algo, pensar. Lá era calmo.

-- Nossa. O que aconteceu com a sua testa?—Perguntou John, meu amigo de infância.

-- Eu cai.

-- Típico de você. Tem que prestar mais atenção, ser mais cuidadosa. Por isso que você nunca se deu bem com a dança.

--Cala a boca, você deveria estar preocupado comigo seu idiota. Que tipo de amigo você é?

-- Do tipo que fala a verdade!

-- Chega. Que música vocês escolheram?

John era magrelo, branco de cabelos loiros e olhos escuros.

Passei à tarde com ele. Estávamos escolhendo as 15 músicas que seriam cantadas no festival, quando sai de lá já passava das 9 da noite. ‘minha mãe vai me matar’ pensei. Mas, não matou.

Apesar do ferimento eu dormi bem aquela noite, de manhã segui a mesma rotina: levantei, tomei banho, tomei café, me arrumei e fui pra escola. Clara me esperava na porta.

-- Victor Montinelle... Você sabe quem ele é?

-- Não, eu deveria saber?

-- Ah, fala sério, duvido que você ainda não percebeu o quanto ele é gato.

-- É, percebi, mas o que tem demais?

-- Nada, mas bem que você gostou de ser socorrida por ele...

--- Ah, para, né! Não tenho intenção nenhuma nele.

-- Sei... Bem, tendo intenção ou não, é o meu dever te falar sobre ele.

-- Seu dever?

-- É, Bem, vamos começar pela família. O pai dele é dono de uma loja que vende peças de carros, chamada ‘Car.’

-- Aquela que fica na frente da minha igreja?

-- É. Ele trabalha com o pai, começou a trabalhar esse ano e...

Ouvimos o sinal tocar. Hora da aula.

A aula passou rápido, o que mais falavam era sobre a faixa na minha cabeça. Sussurravam algo como ‘nossa, acho que ele a tentou atropelá-la de propósito’ ou, ‘Cara, ela ta horrível com essa faixa’.

Na hora do intervalo continuamos no mesmo lugar. Clara estava me falando que Victor repetira o segundo ano por matar aula e que era muito rebelde. Ela me falou também que ele fugiu de casa e que já foi preso por não pagar multas de trânsito... Bem... Disso ela não tinha certeza. Eu não queria que o recreio acabasse. Sorte de Clara que não tinha aula de Ed. Física hoje, ela primeiro teria aula de espanhol, e só amanhã teria aula de Ed. Física. Isso acontecia porque as duas turmas do 2° ano se odiavam, e então, para enturmar os alunos, o Diretor Álvaro tinha dividido as turmas em dois grupos. O Grupo1, que era o meu, tinha aula de Ed. Física na terça e de Espanhol amanhã, e amanhã o Grupo 2, que era o de Clara, tinha aula de Ed. Física.

Só havia um esporte em que eu me destacava e nem era um esporte, nem sei o que é na verdade. O sinal tocou. Droga.

Chegando na quadra eu encontrei Victor, ele estava encostado na parede segurando uma bola de basquete.

-- Fala cabeça!

-- Oi.

-- Ta melhor?

-- Eu nuca estive pior.

-- Não era o que parecia ontem.

-- Cala a boca!

-- É... parece que nós vamos ter aula de Ed. Física juntos.

-- Pois é, você está em que série?

-- 2° ano, na sala A.

-- Hum... Eu sou da sala B.

-- E repeti o segundo, por isso sou tão velho

-- Eu nuca repeti, na verdade sou muito inteligente, o orgulho da família.

-- Sério?

-- Não. Mas a parte da inteligência é verdade.

-- Eu também sou inteligente, só mato aula.

-- Se você fosse inteligente não mataria aula.

-- É verdade, então eu sou burro.

-- Agora você acertou!

-- Idiota.

Como eu não podia jogar, por causa da cabeça, o Diretor me fez assistir a aula. Bem... Eu não estava necessariamente assistindo a aula, estava assistindo Victor. Ele era singular, sempre se destacava nas jogadas. Ele fazia o tipo de garoto que todas as garotas queriam ter, o tipo de cara selvagem, divertido. O tipo de garoto que jamais olharia pra mim.

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Capítulo I.

Enquanto tomava coragem pra me levantar da cama, minha mãe entrava no quarto e puxava a minha coberta como sempre fizera desde a sexta série.

-- Acorda Bela Adormecida! Chegou o grande dia!

-- Que grande dia, mãe? É só o primeiro dia de aula, cadeia, tormento, como preferir.

-- Ah, filha... Você tem que se enturmar conhecer outras pessoas, ter mais amigos.

-- Ah, para mãe! Como se VOCÊ fosse à pessoa mais normal do mundo.

-- A questão não sou eu e sim você.

-- Eu já to acostumada com a minha vida, então, por favor, deixe como está!

-- Levanta você já está atrasada.

Levantei-me, entrei no banheiro. A água quente tocou minha pele, relaxando meus músculos. Senti-me melhor após o banho, me arrumei no banheiro mesmo e então, saí para o café. Sentei-me na mesa, tomei o café, e saí de casa.

Era uma manhã normal de inverno, os termômetros marcavam 16°C. Oh, Deus, como era possível estar tão frio no estado do Rio de janeiro?! Pensei que este fosse um país tropical, mas não era isso o que parecia.

A Escola Técnica Lima Meneses era enorme, mas com apenas 368 alunos no turno diurno. Todos se conheciam. A escola havia sido fundada em 1977 pela família do diretor Álvaro Lima e ficava a dois quarteirões da minha casa. A minha única e fiel amiga me esperava no portão, com uma cara nenhum pouco animada.

-- Está atrasada, como sempre!

-- Clara, que saudade!

A cara desanimada desapareceu, dando lugar a um sorriso largo.

-- Também senti sua fala, Anne.

-- e ai? Como foram as férias, Clara?

-- Ótimas, e as suas?

-- Ótimas, também. Foi maravilhoso ficar fora desse hospício por alguns meses.

Conversamos pelo caminho até a nossa nova sala: ‘2º ano B’. A primeira aula era a de trigonometria, a segunda de inglês, a terceira de álgebra e, enfim, o recreio.

Na hora do recreio, estávamos no parque, sentadas nos balanços com nossos refrigerantes e biscoitos. Falávamos sobre as férias de Clara, ela contava que fora para o Ceará e que tinha ficado com um cara lindo. Eu realmente estava prestando atenção na história, até que um barulho ensurdecedor chamou minha atenção. Moto. O barulho estava cada vez mais perto. Era uma moto preta, radiante, perfeita, do tipo que só aparece em filmes; e em cima dela, estava um louco sem capacete. Pulei do balanço com toda a agilidade que eu pude, mas não foi o suficiente. Cai, e cai feito.

-- Desculpe, não consegui parar. – Falou o louco.

Não consegui responder, a minha vontade era de matá-lo. Eu estava tonta. Clara estava paralisada no outro balanço.

-- Cara, você ta péssima! Tem um buraco enorme na sua testa. Você ta horrível! –Continuou o louco.

-- Se ta tentando se desculpar é melhor calar a boca! – Finalmente respondi.

-- Ah, foi mal. Vamos, eu vou te levar pra enfermaria.

-- Ah, que isso, eu sei o caminho. Clara, diz ao professor de filosofia que eu vou me atrasar.

-- Ok! – Respondeu Clara e logo depois saiu correndo.

-- Então ta! Boa sorte com as escadas sua estranha.

-- Valeu, e vê se presta mais atenção seu louco!

Andei até o primeiro degrau. Tropecei. Graças ao louco que me segurou eu não cai.

-- A propósito, o meu nome é Victor!

-- E o meu é Anne. Desculpe, não posso dizer que foi um prazer conhecê-lo.

-- Entendo. Pra falar a verdade... nem eu.

Cheguei na enfermaria. Era ótimo começar o ano letivo com um curativo na testa, era o que toda garota queria.

Victor era alto, tinha a pele morena meio avermelhada, os cabelos e os olhos pretos, um corpo grande e definido. Perdi tanto tempo na enfermaria que só depois -- quando toda aquela agitação teve fim – percebi que ele era bonito, muito bonito.

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Sinopse

Eu nunca fui muito atraente, não era a preferida dos bonitões do ensino médio, pelo contrário eu era um repelente contra eles.

Minha vida era comum. Eu tinha uma irmã quase da minha idade chamada Bianca, um irmão de três anos chamado Gustavo, Um pai amoroso e conservador chamado Tony e uma mãe totalmente louca e necessária chamada Rachel. Minha vida era tranqüila, calma. Até...

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