Capitulo II
Depois que todo aquele tormento teve fim, eu pude me livrar o chato do Victor e da chata da Clara, mas AINDA não tinha me livrado da minha mãe.
-- Oh, meu Deus! Filha, o que fizeram com você?
-- Eu cai.
-- Eu fiquei tão preocupada quando Álvaro me ligou...
-- Não aconteceu nada demais mãe; eu cai... Só isso.
-- Como assim ‘nada demais’?! Você quase foi atropelada por uma moto!
-- É, mas não fui!
-- Tudo bem, depois terminamos essa conversa. Agora você precisa descansar.
-- Não, eu tava querendo ir pra igreja... Posso?
-- NÃO.
Então eu resolvi parar de discutir e fui assistir televisão. Nenhum programa bom. Tentei ler um livro. Nada. ‘que droga’ pensei comigo mesma. Decidi ir pra igreja mesmo.
-- Mãe, to indo. Tchau.
-- Volte já aqui mocinha. Você tem que descansar.
-- Mas eu não to cansada e é hoje que nós vamos escolher as músicas do festival.
-- Tudo bem, mas qualquer coisa me ligue!
-- Ta.
Sai e fechei a porta antes que ela mudasse de idéia.
A igreja Batista da minha cidade era perto da minha casa. Eu fazia parte do coral – Não sabia cantar, mas fazia parte-- Eu trabalhava mais com a organização das músicas e os eventos dos jovens, só às vezes eu me arriscava a cantar.
A igreja era grande, a maioria dos meus amigos era de lá. Eu realmente adorava ir para lá quando eu queria fugir de algo, pensar. Lá era calmo.
-- Nossa. O que aconteceu com a sua testa?—Perguntou John, meu amigo de infância.
-- Eu cai.
-- Típico de você. Tem que prestar mais atenção, ser mais cuidadosa. Por isso que você nunca se deu bem com a dança.
--Cala a boca, você deveria estar preocupado comigo seu idiota. Que tipo de amigo você é?
-- Do tipo que fala a verdade!
-- Chega. Que música vocês escolheram?
John era magrelo, branco de cabelos loiros e olhos escuros.
Passei à tarde com ele. Estávamos escolhendo as 15 músicas que seriam cantadas no festival, quando sai de lá já passava das 9 da noite. ‘minha mãe vai me matar’ pensei. Mas, não matou.
Apesar do ferimento eu dormi bem aquela noite, de manhã segui a mesma rotina: levantei, tomei banho, tomei café, me arrumei e fui pra escola. Clara me esperava na porta.
-- Victor Montinelle... Você sabe quem ele é?
-- Não, eu deveria saber?
-- Ah, fala sério, duvido que você ainda não percebeu o quanto ele é gato.
-- É, percebi, mas o que tem demais?
-- Nada, mas bem que você gostou de ser socorrida por ele...
--- Ah, para, né! Não tenho intenção nenhuma nele.
-- Sei... Bem, tendo intenção ou não, é o meu dever te falar sobre ele.
-- Seu dever?
-- É, Bem, vamos começar pela família. O pai dele é dono de uma loja que vende peças de carros, chamada ‘Car.’
-- Aquela que fica na frente da minha igreja?
-- É. Ele trabalha com o pai, começou a trabalhar esse ano e...
Ouvimos o sinal tocar. Hora da aula.
A aula passou rápido, o que mais falavam era sobre a faixa na minha cabeça. Sussurravam algo como ‘nossa, acho que ele a tentou atropelá-la de propósito’ ou, ‘Cara, ela ta horrível com essa faixa’.
Na hora do intervalo continuamos no mesmo lugar. Clara estava me falando que Victor repetira o segundo ano por matar aula e que era muito rebelde. Ela me falou também que ele fugiu de casa e que já foi preso por não pagar multas de trânsito... Bem... Disso ela não tinha certeza. Eu não queria que o recreio acabasse. Sorte de Clara que não tinha aula de Ed. Física hoje, ela primeiro teria aula de espanhol, e só amanhã teria aula de Ed. Física. Isso acontecia porque as duas turmas do 2° ano se odiavam, e então, para enturmar os alunos, o Diretor Álvaro tinha dividido as turmas em dois grupos. O Grupo1, que era o meu, tinha aula de Ed. Física na terça e de Espanhol amanhã, e amanhã o Grupo 2, que era o de Clara, tinha aula de Ed. Física.
Só havia um esporte em que eu me destacava e nem era um esporte, nem sei o que é na verdade. O sinal tocou. Droga.
Chegando na quadra eu encontrei Victor, ele estava encostado na parede segurando uma bola de basquete.
-- Fala cabeça!
-- Oi.
-- Ta melhor?
-- Eu nuca estive pior.
-- Não era o que parecia ontem.
-- Cala a boca!
-- É... parece que nós vamos ter aula de Ed. Física juntos.
-- Pois é, você está em que série?
-- 2° ano, na sala A.
-- Hum... Eu sou da sala B.
-- E repeti o segundo, por isso sou tão velho
-- Eu nuca repeti, na verdade sou muito inteligente, o orgulho da família.
-- Sério?
-- Não. Mas a parte da inteligência é verdade.
-- Eu também sou inteligente, só mato aula.
-- Se você fosse inteligente não mataria aula.
-- É verdade, então eu sou burro.
-- Agora você acertou!
-- Idiota.
Como eu não podia jogar, por causa da cabeça, o Diretor me fez assistir a aula. Bem... Eu não estava necessariamente assistindo a aula, estava assistindo Victor. Ele era singular, sempre se destacava nas jogadas. Ele fazia o tipo de garoto que todas as garotas queriam ter, o tipo de cara selvagem, divertido. O tipo de garoto que jamais olharia pra mim.






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